Com
grande parte das filmagens
durante este período
indo para O Baú da
Morte (Dead Man’s
Chest), seguido por um intervalo
de verão enquanto
um gigantesco tanque aberto
estava sendo construído
em um estúdio na
Ilha de Grand Bahama, a
cena seguinte a ser rodada
só viria a acontecer
em 31 de agosto de 2005,
com Chow Yun-Fat juntando-se
ao elenco como o capitão
Sao Feng para as cenas filmadas
no estúdio 2 da Disney,
nos cenários luxuosos
de Rick Heinrichs representando
a cabine do pirata chinês
em seu navio, o Empress.
Dois dias depois, começaram
as filmagens do primeiro
grande cenário de
No Fim do Mundo (At World’s
End) e, para muitos, ele
representou a apoteose da
arte de Rick Heinrichs e
de toda a sua equipe: uma
gigantesca e extravagante
recriação
de Cingapura no início
do século 18, construído
no Estúdio 12 da
Universal. Este incrível
cenário de casas,
incluindo umas 40 estruturas
individuais, foi montado
em cima de um tanque de
24 por 40 metros quadrados,
e era composto basicamente
de um porto repleto de choupanas
típicas do sudeste
da Ásia e casas de
palafitas (conhecidas como
kampongs), e uma área
fabulosa da cidade mais
antiga, de um período
anterior, com arquitetura
chinesa, incluindo ruas
adjacentes, onde todo tipo
de negócio duvidoso
é realizado, e ainda
uma ampla casa de banho
freqüentada com assiduidade
por piratas locais. Heinrichs
até mesmo desenhou
e construiu uma área
com o teto rebaixado sob
a casa de banho na qual
trabalhadores mantêm
a água aquecida em
grandes fornalhas. Esse
foi o palco para uma seqüência
inicial e crucial de No
Fim do Mundo (At World’s
End), na qual Will, Elizabeth
e Barbossa estão
em busca dos mapas secretos
do capitão Sao Feng
que podem levá-los
aos Domínios de Davy
Jones - e, conseqüentemente,
ao capitão Jack Sparrow,
que foi mandado para lá
no grand finale de O Baú
da Morte (Dead Man’s
Chest) pelo Kraken. O resultado
disso é uma fabulosa
seqüência de
ação que extrapola
os limites do centro da
cidade chegando aos instáveis
calçamentos de madeira,
iluminados por lanternas
penduradas, que interligam
as casas kampong sobre estacas
em cima do porto e mostra
os piratas enfrentando os
soldados da Companhia das
Índias Orientais.
“Cingapura é
uma babel de estilos arquitetônicos
e influências que
nós pesquisamos quando
estávamos estudando
como o local deveria ser
naquela época”,
diz Heinrichs. “Durante
aqueles anos, Cingapura
não foi um lugar
particularmente bem documentado
até o século
19, então nós
recorremos a uma série
de outras cidades chinesas
para usarmos como referência.
Optamos por uma abordagem
deliberadamente fantástica,
criando algo parecido com
um estilo expressionista
chinês malaio daquilo
que achamos que Cingapura
pode ter sido na época.
“A casa de banho é
um abominável exemplo
de falta de higiene que
ridiculariza o conceito
de spa que se multiplica
atualmente”, continua
Heinrichs. “Há
muitos tipos de cogumelos
e outros fungos crescendo
nas banheiras de madeira
e, na verdade, os piratas
passavam tanto tempo deitados
nas banheiras que também
seus corpos ficam cobertos
por cogumelos! Eles não
são capazes de deixar
a falta de higiene que impera
nos barcos… eles a
levam para dentro da casa
de banho. O objetivo principal
disso tudo é dar
ao público uma fantástica
sensação de
náusea com relação
a como os piratas são
nojentos, brutais e imundos.
Nós acrescentamos
doses extras de espessante
e corante à água,
para que ela parecesse ter
uma consistência meio
indefinida. O capitão
Sao Feng tem seu próprio
nicho especial reservado
na casa de banho, com um
dragão imperial na
parede ao fundo. Uma das
coisas mais divertidas que
fizemos foi desenhar todo
o chão da casa de
banho de forma que tivesse
uma aparência insalubre,
que é quase orgânico,
então cada uma das
tábuas teve que ser
feita à mão",
descreve ele.
A colaboradora de longa
data de Heinrichs, atuando
como cenógrafa e
que dividiu uma indicação
ao prêmio da Academia®
com ele pelos trabalhos
nos filmes Desventuras em
Série (Lemony Snicket’s
A Series of Unfortunate
Events) e O Baú da
Morte (Dead Man’s
Chest) na categoria de Melhor
Direção de
Arte – é Cheryl
Carasik. “Já
trabalhei em quatro filmes
quase que consecutivos com
Rick, e nós temos
um relacionamento incrível”,
diz ela. “Rick dá
início ao processo
imediatamente, então
eu tenho informação
suficiente desde o começo
para me preparar e fazer
os ajustes finos no projeto
como um todo. A decoração
de cenário de Carasik
para Cingapura, metade da
qual foi, na verdade, importada
da Ásia, foi um amontoado
de cestas, produtos alimentícios,
lanternas chinesas tremulantes,
barris, engradados, pergaminhos
pintados, varais de roupa,
tudo feito de rattan e bambu
(a maior parte trazida de
volta por Carasik de locações
em Dominica), madeira e
folhas de palmeiras, ou
seja, tudo que deveria existir
no sudeste asiático.
“Foi um dos maiores
cenários que eu já
fiz em toda a minha carreira
e, provavelmente, o maior
desafio que já tive,
em função
do curto espaço de
tempo que tive para montá-lo”,
recorda Carasik. “Havia
recantos, boticas antigas,
olarias e interiores de
estabelecimentos que precisavam
de decoração
- porque nunca se sabe em
que local Gore vai querer
filmar”, diz ela.
Do ponto de vista atmosférico,
o set de Cingapura realmente
nos dava sensação
de sudeste asiático,
com um nível de umidade
elevadíssimo, por
causa dos milhares de litros
de água do tanque
utilizado para criar a zona
portuária, combinado
ao calor produzido pelo
potente equipamento de iluminação.
Havia até mesmo uma
névoa bem visível
que podia sempre ser vista
na superfície do
mar!
No Fim do Mundo (At World’s
End) apresentou novos e,
por vezes, insuperáveis
desafios ao coordenador
de cenas de ação
George Marshall Ruge, ao
seu assistente Dan Barringer
e à sua fabulosa
equipe de dublês e
atores, que desta vez incluiu
um imenso contingente asiático
apresentando toda sorte
de especialistas em artes
marciais. A seqüência
em Cingapura, envolvendo
o capitão Barbossa,
Will Turner, Elizabeth Swann,
Gibbs, Tia Dalma, Pintel
e Ragetti, Cotton e seu
papagaio Marty, o capitão
Sao Feng, o macaco Jack
e uma variedade de aproximadamente
200 piratas chineses, a
milícia da Companhia
das Índias Orientais
e diversos cidadãos
de Cingapura, passa de uma
casa de banho fechada para
ruas e becos da cidade,
seguindo pelo instável
calçamento de tábuas
de madeira e passagens que
ligam as choupanas localizadas
na área portuária.
“A seqüência
de Cingapura começou
como algo desconhecido e
com a descrição
de uma única linha
em uma das versões
do roteiro”, observa
Ruge. “Sem muito aviso,
transformou-se em algo de
proporções
gigantescas, com a rápida
evolução para
uma seqüência
complexa em um set muito
difícil. Nós
tínhamos um espaço
de tempo limitado para preparar,
desenhar toda a ação,
coreografar e ensaiar. Porque
os cenários ainda
estavam sendo construídos
e a tinta ainda estava secando,
eu acabei marcando os ensaios
para horários pouco
convencionais que muitas
vezes se estendiam noite
adentro.” “A
seqüência na
casa de banho apresentou
uma série de problemas",
segue Ruge, explicando:
“Foi necessária
uma coreografia complexa
de luta em um espaço
apinhado de gente e repleto
de obstáculos - as
próprias banheiras,
por exemplo. O cenário
era liso e incrivelmente
escorregadio, com vapor
emanando de todos os orifícios.
A ação foi
projetada para ser totalmente
voltada para os personagens;
nova, intrincada e vigorosa.
Não havia, literalmente,
nenhum espaço para
erros com armas de fogo
e espadas voando por todos
os lados. Quando a ação
saiu da casa de banho e
passou para as ruas de Cingapura,
surgiu uma outra série
de problemas. A ação
teve que ser desenhada para
ser realizada nos mesmos
calçamentos de tábuas
de madeira que foram instalados
sobre a água com
bases de bambu. Para isso
foram necessários
dublês que caíam
na água de uma altura
de 2,5 a 4,2 metros, que
tinha apenas 15 centímetros
de profundidade e cujo fundo
era de concreto.”
A solução
que Ruge encontrou foi afundar
grandes pedaços de
um tipo de espuma revestida
de um material de borracha
preta e prendê-los
no chão do estúdio.
O problema é que
devido à densidade,
esse material tem tendência
a flutuar, então
foi necessário fazer
furos através da
espuma de forma a permitir
que a água escoasse
por dentro dela e a mantivesse
no fundo. Chow Yun-Fat,
que já tinha feito
várias cenas na Ilha
de Grand Bahama, foi uma
grande atração
no set de Cingapura, especialmente
para os membros da companhia
que acompanham há
anos a sua bem-sucedida
trajetória nos cinemas
asiático e norte-americano.
“Ele sempre dizia
que se sentia honrado de
estar lá”,
relembra Reggie Lee, que
interpreta Tai Huang, o
braço direito de
capitão Sao Feng.
“Ele é um superastro
a quem todos nós
idolatramos e que na verdade
é muito humilde e
simpático com todo
mundo. O trabalho de Yun-Fat
é espetacular, ele
tem um grande senso ético,
e ter a oportunidade de
trabalhar com ele é
simplesmente fantástico.”
Também participando
da briga em Cingapura estavam
alguns dos agora famosos
artistas não-humanos
da série de filmes
Piratas, sob o comando do
coordenador de animais Boone
Narr, da Boone’s Animals
de Hollywood e do adestrador-chefe
Mark Harden. Um deles era
o macaco Jack, novamente
interpretado por Chiquita
(fêmea) e por Pablo
(macho), dependendo das
habilidades requeridas para
cada cena. No Fim do Mundo
(At World’s End),
mais ainda que o filme anterior,
realmente deu a Pablo e
a Chiquita uma chance de
brilhar como os símios
téspios. Eles foram
vestidos com pequenos trajes
chineses na seqüência
de Cingapura, roubam um
candelabro romano e o atiram
durante a briga contra as
tropas da Companhia das
Índias Orientais.
“Foi literalmente
um estouro”, conta
Harden. “Pablo e Chiquita
tinham de levar uma vela
acesa e tocar no pavio com
a chama e foram necessárias
60 tomadas até dar
certo. Não foi só
por causa dos macacos, foi
uma convergência harmoniosa
de todas as coisas dando
errado. Mas eu fiquei muito
feliz. Quero dizer, todo
mundo brincou comigo porque
fizemos 60 tomadas, mas
eu fiquei orgulhoso porque
os macacos estavam dispostos
a repetir 60 vezes até
ficar direito!”, ressalta
ele.
Também participando
do filme e sempre ao lado
do silencioso Cotton (David
Bailie), vemos Chip ou Salsa,
os papagaios que interpretam
o estridente pássaro
de estimação
do pirata. Será que
o relacionamento entre Bailie
e o animal melhorou depois
de três filmes? “Se
eu tivesse alguma coisa
a ver com isso, eu teria
tentado, mas o pássaro
parece totalmente indiferente
a mim. As pessoas só
me reconhecem por causa
da maldita criatura!”,
brinca o ator.
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